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Casa de Maria

Por Pedro Chichorro

Como poderão ter percebido pela carta, esta semana vai servir para ganharmos alguma firmeza e força interior para quando regressarmos a Lisboa e voltarmos a enfrentar desde os menores aos maiores desafios que se atravessam no nosso caminho pessoal, no caminho da Igreja ou no da sociedade em geral, o façamos sempre de acordo com a vontade de Deus, ou seja, da forma como Maria o faria. Para tal, precisamos de a conhecer melhor, assim como precisamos de nos conhecer melhor e de estarmos bem educados. Portanto, metaforicamente claro, vamos passar esta semana em casa da nossa mãe do céu, Maria Virgem Santíssima.

Mas porquê Maria?

Como bem sabemos, um daqueles "desafios que se atravessam no nosso caminho" nos dias de hoje é a necessidade de evangelizar. Basta olharmos um pouco à nossa volta para percebermos a falta de fé, de humildade, solidariedade e amor na maior parte da população. E já que nos foi dado tanto, desde uma boa família e educação ao facto de termos sempre comida na mesa, e de nos ter sido posto Deus e Schoenstatt na nossa vida, se calhar está na altura de evangelizar, ou seja, partilhar e testemunhar com os outros tudo aquilo que foi posto no nosso caminho de bom.

Contudo, para o fazer é preciso estar bem connosco próprios, firmes, perceber e sentir aquilo que estamos a dizer, o que só provém da oração. A oração ajuda-nos a perceber qual a vontade de Deus e ao mesmo tempo ajuda-nos a não irmos abaixo e a desistirmos tão facilmente. Por exemplo, sempre que acabamos uma jornada sentimos a nossa fé renovada, e com vontade de mudar o mundo e cumprir a nossa missão ao máximo. Assim, a oração é importantíssima no sentido em que permite manter esta chama acesa durante o resto do ano em vez de desistirmos ao menor obstáculo como muitas vezes acontece...

Uma forma de evangelizar é através do serviço ou "dar o exemplo" que, para mim, é muito mais eficaz do que apenas testemunhar. Acho que é muito mais marcante uma pessoa que esteja sempre pronta a servir e que aja de forma diferente e inesperada no bom sentido o que acaba por despertar o "bichinho" nas outras pessoas muito mais facilmente do que as palavras o fazem. Por exemplo, fascina muito mais as pessoas de fora se tu realmente fores ao encontro da humanidade do teu próximo e, por exemplo, ajudares as pessoas mais necessitadas do que dizeres que a Igreja é muito solidária e ajuda os desfavorecidos (apesar de ser verdade!). Por isso, é muito importante que estejamos sempre atentos e não esquecer que somos o rosto da Igreja e que por isso as nossas acções influenciam a sua imagem. Servus Mariae, Nunquam Peribit (Um servo de Maria nunca perecerá) é uma frase que está presente em qualquer santuário de Schoenstatt e que devia ser um pouco uma forma de estar de todos os pioneiros, dispostos a servir Maria a qualquer momento.

Portanto a oração e o serviço são virtudes fundamentais nos dias de hoje. Outra é precisamente a humildade. Existe uma crescente falta de humildade na nossa sociedade, onde as pessoas têm prioridades muito trocadas. Vivemos num mundo consumista e materialista onde as decisões das pessoas são feitas em função do poder, do sucesso ou do dinheiro em vez de Deus e do bem. É um estilo de vida muito tentador nos dias de hoje, muito fácil de cair nele, onde a humildade é precisa para percebermos que esta corrida atrás daquelas coisas materiais, os chamados falsos-deuses, não passam de uma gigante ilusão, pois como dizia a Madre Teresa "pobres são aqueles que não recebem amor". Ou seja, uma pessoa pode até ter todo o dinheiro do mundo que se não se sentir amada, se não se sentir amada por Deus acaba por sentir um vazio ainda maior que tenta preencher ao comprar coisas, mas como bem sabemos não são estas que nos fazem verdadeiramente felizes. É, então, necessário rezar por todas estas pessoas que entraram nesta "corrida." Contudo, não estou a dizer que ter dinheiro ou poder seja uma coisa má que devamos rejeitar, desde que o que tenhamos de fazer para os alcançar não seja prioritário a coisas muito mais importantes como Deus, a ética ou a nossa própria família por exemplo. Mas se for compatível, claro que podemos ter dinheiro e poder, como diz o nosso Papa Francisco: "que seja o dinheiro ao serviço das pessoas e não as pessoas ao serviço do dinheiro".

É preciso também humildade no sentido em que temos que reconhecer que somos muito pequenos e não conseguimos fazer nada sózinhos, sem Deus. "humildade é a verdade" dizia Santa Teresa de Ávila, ou seja, uma pessoa humilde é uma pessoa autêntica e verdadeira, isto é, que sabe o que é realmente essencial e o que não é, o que a realmente faz feliz e vive aquilo em que acredita. No fundo uma pessoa humilde é uma pessoa com a cabeça no sítio.

Portanto, nomeamos três características essenciais para os dias de hoje, para evangelizarmos: são elas a oração, o serviço e a humildade, e chegámos a Maria precisamente por isto mesmo, por Ela ser o maior exemplo destas três virtudes.

Agora, porquê casa? Porquê Casa de Maria?

É simples: é em casa que nos sentimos bem, onde somos nós próprios e estamos à vontade. Ao mesmo tempo é o sítio onde somos educados, neste caso por Maria Nossa Mãe e por isso somos educados de acordo com as suas virtudes. Se quisermos continuar a metáfora podemos dizer que somos filhos de Maria e por isso estamos em sua casa. Contudo os filhos não podem ficar para sempre em casa dos pais. Quando sairmos de casa de Maria, isto é, quando acabar esta semana, vamos ter de enfrentar um mundo com mais obstáculos do que este, no entanto vamos enfrentá-lo com a sabedoria, com o amor e humildade com que Maria nos educou e nos testemunhou, e também podemos sempre fazer, com alguma regularidade, visitas a casa de nossos pais do Céu, o santuário, de forma a ganharmos alguma força e confiança.

Portanto um dos objectivos do campo é precisamente aprendermos o máximo sobre Maria e a ser como ela, o que faz todo o sentido pois estamos num Movimento mariano e porque em Maria vimos as características que mais falta fazem a este mundo, características que já foram faladas (envangelização, oração, serviço e humildade) e, portanto, fazer disto uma forma de estar na vida, ou seja, em todos os momentos ter como prioridade a missão que Deus tem para nós, dedicar a nossa vida a Ele e a Maria, sendo seus fiéis servos.

Por fim, outra coisa fundamental para que tudo o que foi falado possa acontecer é a autenticidade. Se nós não formos autênticos, se não formos coerentes nunca vamos conseguir passar da teoria. Vamos apenas ser o filho que passou a vida toda em casa dos pais sem conseguir levar as virtudes da nossa Mãe pelo mundo fora. É sem duvida um dos nossos maiores desafios, viver e agir de acordo com aquilo em que acreditamos: encontrar uma coerência entre aquilo em que acreditamos e aquilo que fazemos. Pois podemos até ter ideias e uma educação excelente que se agirmos de forma completamente diferente, de nada serve. Contudo, vai haver muitas vezes na nossa vida que não vamos ser coerentes, o que não é desculpa para nos irmos abaixo, pois também é importante reconhecer que somos pecadores e não devemos desistir nunca da missão que Deus tem para nós só porque tivemos uns deslizes, mas sim aprender com esses erros e não voltar a cometê-los. Que desafio tão grande este... então agora nas férias! Nas férias quando se metem as miúdas de bikini e vêm as grandes festas é muito difícil ser autêntico e resistir a algumas das tentações que com elas podem vir agarradas, por isso é que devemos estar bem conscientes se estamos realmente dispostos a entregar a nossa vida a Deus ou se pomos o nosso bem estar à frente do resto. Se optarmos pela primeira e estando cientes de que vamos cair muitas vezes, é imprescindível mantermos vivas virtudes como a oração que nos fazem sentir amados e importantes para Deus e a humildade para que não nos deixemos levar pelas tentações do mundo, e uma certa fidelidade e confiança na Igreja e na Divina Providência.